Home » Crônicas
Há algo mais naquela garota: Cap. 22
- Bem vindo ao mundo dos vivos, Nômade! – falou Eámane, ajudando o ex-cativo a se sentar no tronco caído. – Parece que faz bastante tempo que não está entre nós, não?
- Eu… Onde estou? Quem é você, elfa? – ainda se adaptando ao ar puro e à luz do sol, falou Nômade, aceitando a ajuda da estranha. – Onde está Alice?
- Pergunta muito por ela, não? – comentou a elfa, com um riso leve. – Está em Hinterlands, ao lado de sua guilda, Dark Alice está aqui ao lado, e foi a responsável por seu resgate.
Alice apenas olhava Nômade, um pouco distante por conta do cheiro que ele emanava. Sabia que era por ter ficado em cativeiro, e agora tinha certeza que sua situação era precária. Mas ainda a intrigava o fato que ele buscava por ela. Ele sabia que ela teria condições de resgatá-lo? A warlock deu mais alguns goles do odre de água para recuperar suas forças, gastas para salvar aquele velho, e resolveu que não esperaria mais.
- Muito bem, Nômade. – começou a humana. – Está livre de seu cativeiro. Agora me diga, o que quer de mim?
- Alice! – interviu Isaxi, olhando da warlock para o rogue. – Ele mal chegou, e não parece muito em condições para conversar agora. Vamos tratar se suas feridas antes.
Alice calou-se. Graças à ajuda de Isaxi e dos outros, pôde realizar o ritual que há tanto tempo gostaria de colocar em prática, então decidiu que aceitaria a sugestão da elfa, como uma forma de agradecimento. Pelo menos por hora.
- Está bem. – respondeu a humana. – Vamos, então, levá-lo para Aerie Peak e vocês podem cuidar de suas feridas e de sua condição.
A humana, então, seguiu para a citadela dos anões, enquanto Isaxi e Dorei transportavam Nômade de volta para os aposentos de Isaxi, usando a capa de Dorei como uma maca improvisada para Nômade, que parecia estar atordoado.
Durante o trajeto, Nômade manteve-se calado, tentado organizar e recobrar seus pensamentos. Já entendia que tudo de fato era real, sua sanidade estava voltando aos poucos, e o pouco que podia se notar de seu estado é que saboreava o ar puro, respirando fundo vagarosamente. Discretamente direcionava sua visão, mesmo com os olhos entreabertos, sempre a procura da bela garota ruiva.
Ao chegarem, Dorei auxiliou Nômade a se banhar, enquanto as elfas providenciavam roupas limpas para o rogue. Ao ver o estado de sua aparência, o rogue pediu ao guerreiro uma navalha, para que pudesse fazer sua barba, deixando seu cavanhaque bem feito, como sentia falta de fazer no cativeiro, especialmente agora, que estava próximo àquela que invadia seus sonhos por tanto tempo. Em pouco tempo ele já estava acomodado na cama de Isaxi e, ainda que magro, sentia-se mais apresentável ante a seus salvadores. Comia avidamente parte do pernil dos anões e uma caneca de cerveja, procurando recuperar suas forças. Isaxi examinou o corpo de Nômade, procurando por alguma injúria, e só pôde constatar que seus calcanhares estavam com feridas mal tratadas e, portanto, mal cicatrizadas.
- Nômade, antes que Alice volte para conversar com você, gostaria de entender o que houve. – indagou Isaxi, preocupada com a condição das feridas do rogue.
Nômade sentiu seu rosto corar. “Já não sou mais o mesmo”, pensou, pois não tinha mais controle sobre suas emoções. Notara que expunha facilmente seus sentimentos, já estava certo que seu interesse pela ruiva não era somente em querer saber sobre ela, mas sentia algo mais profundo, logo respondeu depois de respirar fundo, com a cabeça baixa:
- Alice!… Pois bem… nem eu sei como chegou a tanto… quando nos encontramos em Goldshire, há tanto tempo atrás, algo me despertou curiosidade sobre a bela ruiva, queria saber mais sobre ela, ela com aquele ar singelo, porém misterioso, estas coisas me intrigam, mas conforme aprofundava minhas pesquisas, isso tornou-se uma fixação para mim… fez uma pausa. – Não conseguia mais pensar em outra coisa.
Isaxi olhou, inicialmente, incerta para Nômade, depois entendeu e agradeceu à Elune que estavam apenas os dois por ali. Dorei e Eámane tinham se retirado, para providenciar mais um aposento para Nômade, enquanto Alice… Bem, não sabia o que Alice estava fazendo, mas no momento estava feliz de saber que ela não se encontrava no quarto, durante a revelação inesperada do humano.
- Bem… – Respondeu a elfa, sorrindo um pouco. – Eu me referia às suas lesões em seus pés, e seu cativeiro naquele local ermo. Mas, se quiser, podemos conversar sobre este assunto. Pelo menos indica que você está melhor do que eu pensava.
Desta vez o rosto de Nômade ficou mais corado, olhou para elfa prostrando um sorriso sem graça. Levantou-se com um pouco de dificuldade, tentando olhar para seus calcanhares, com expressão de leve espanto, pois havia esquecido do grave golpe que recebera em sua captura. Depois de tanto tempo acuado em seu cativeiro, permanecia a maior parte do tempo sem muitos movimentos, mesmo quando exercitava, não exigia tanto apoio e agilidade nas pernas.
Deixando o corpo ereto, tentou ficar na ponta dos pés, mas como um choque nos tendões acompanhado de dores, sentou-se rapidamente franzindo a testa.
- Isso é mais grave que eu podia imaginar. Temo não ser mais o mesmo, o que será de mim, se ficar sem agilidade, minha maestria como rogue estará perdida. – Levando a mão direita à testa, movimentando sutilmente a cabeça de forma negativa.
Isaxi se aproximou do rogue estendendo sua mão direita ao ombro de Nômade.
- Está tudo bem? – perguntou a elfa gentilmente.
- Só o tempo me revelará meu estado. – Respondeu Nômade, dirigindo o olhar à elfa.
Alguns segundos de silêncio dominaram o recinto, até que Nômade começou a falar.
- Sabe elfa… Uma frase me persegue: “Há algo mais naquela garota”… Há muito penso nisto. Nunca imaginei que pudesse me envolver de tal forma, ainda mais sem conhecê-la realmente. Meus sentimentos ficaram confusos a cada passo dado em minhas pesquisas. Agora, com todo tempo que passei cativeiro, sabe o que aconteceu? Todos eventos fizeram aflorar algo novo dento de mim. Não sei ao certo de que posso chamar isso, ou talvez eu saiba…- fez uma breve pausa olhando para o teto-… mas com certeza é algo que devasta, que cega.
Isaxi olhava atenta, tentando disfarçar seus pensamentos a respeito do que ouvia, deixando que o rogue prosseguisse.
- Meu passado é sombrio, fiz coisas que não merecem perdão, e tento reparar isso a cada dia. Mas depois que comecei a investigar a garota, me desvirtuei dos meus propósitos. Estava concentrado nesta pesquisa para fazer algo oposto ao que fazia além de batalhas e caçadas, como se fosse algo divertido de se fazer, para satisfazer meu próprio ego talvez… talvez para saber se ela tinha algo em especial ou diferente, não pensava nela como uma mulher, apenas como uma garota que pudesse ser diferente, sem mesmo saber o que faria depois de minha curiosa pesquisa.
Nômade fez outra pausa, esperando comentários de sua ouvinte, mas ao perceber que nem um questionamento foi-lhe imposto, continuou:
- Tanto fiz, que mais do que rápido fiquei obcecado por ela, sem saber o que era tudo aquilo, simplesmente achava que estava louco, cego, sei lá. Queria descobrir sobre ela a qualquer custo, estava alienado, fora de mim, não pensava em outra coisa, a não ser naquela pele doce, naqueles cabelos de fogo, naqueles lábios púrpuros…. – respirou fundo – só sei que por conta disto, minhas habilidades foram afetadas, a tal ponto que acabei sendo capturado. Nunca, nunca me distraí a ponto de ficar tão exposto e tão vulnerável.
Isaxi esperou um pouco mais para ver se haveria algo mais a ser acrescentado pelo humano e, como ele estava no silêncio culpado e tranquilo que segue a confissão, acho que poderia falar.
- Realmente não sei o porque ficou obcecado de tal forma, como descreve. – falou Isaxi, quase como uma mãe. – Mas bem conheço o sentimento. Há alguém que nunca correspondeu a meus sentimentos, mas não acredito que tenha me cegado a tal ponto. Mas é algo que vejo nos humanos. Humanos são sempre muito passionais. E talvez seja isto que os impulsione a fazer as grandes obras que fazem. – A elfa fez uma breve pausa. – Mas acho que, se é realmente o que sente, deveria falar. Não seria justo pra você, que sofreu o quanto sofreu, nem a ela, que parece ignorar seus sentimentos, que isto seja escondido por tanto tempo. Talvez vocês estivessem destinados a se encontrar nesta circunstâncias. Só Elune poderia explicar isto.
Ao ouvir Isaxi falar um pouco de seus sentimentos, Nômade não pode esconder espanto, mas conforme ouvia, sentiu-se aliviado e disse:
- Não entendo o destino, para falar a verdade, nem acreditava nisto, mas isso tudo me faz acreditar que este “tal evento chamado destino” realmente existe. Como disse, nunca imaginei sentir algo por alguém, ainda mais pela vida que levei até hoje…
Antes que Nômade terminasse, após o som de duas batidas, a porta se abriu:
Nota: Se você acompanha os capítulos, gosta, acha emocionante, deixe um comentário, isso deixa o autor feliz e com mais vontade de escrever ^^





