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Há algo mais naquela garota : Cap. 24

Alguns dias atrás, em Ravenholdt.

Um rogue se aproxima pelo corredor que leva ao cativeiro de Nômade com sua ração. Chegando, bate continência ao vigia e, em seguida abre a fresta para entrega da refeição.
- Tome traidor, coma! – disse o entregador com ironia.

Nem um movimento ou som foi percebido na cela. O rogue que fazia turno de vigia curvou o corpo tentando espiar dentro da cela resmungando para o outro:

- Será que o maldito morreu?

Os dois se entreolharam e, após um gesto de consentimento, abriram a porta, e a grande surpresa:

- O TRAIDOR FUGIU! O TRAIDOR FUGIU! – Gritava desesperadamente o vigia.

Não demorou para Fahrad aparecer. Seu olhar era furioso, como se lançassem chamas, dizendo aos gritos:

- IMPOSSÍVEL! COMO? COMO? – Olhou para o rogue vigia, batendo-lhe na face com as costas de sua mão. – SEU INCOMPETENTE, VOCÊ NÃO VIU NADA?

Pouco atrás de Fahrad estavam Neriá e Alôra, que como de costume, o acompanhavam.

- Só pode ter sido tirado daqui por meio de magia! – Disse Neriá. – Malditos, aquele ataque não foi uma distração. Infernal e Sucubus!  Agora tudo se esclarece! – Concluindo para que não levantasse qualquer suspeita, afinal ela sabia muito bem que Alice era uma warlock, só não imaginava que fosse tão competente, mas por hora tinha que garantir sua própria segurança.

- Sim mestre Fahrad, isso é obra de warlocks, somente eles tem esse tipo de poder, para tirar alguém de um lugar para o outro, e são poucos os que sabem fazer isso. – Concluiu Alôra.

Fahrad se voltou paras as duas, concordando com suas conclusões.

-Nosso traidor está envolto a grandes e, talvez, poderosas amizades! Hahaha… Ele não está tão ruim assim. – Fechou a expressão e continuou. -Sua hora chegará, quero todos atrás dele AGORA! Revirem o mundo se for preciso, só retornem com ele ou alguma notícia de seu paradeiro, ou se verão comigo. – Terminou Fahrad, se retirando do local a passos pesados.

Chegando no saguão, olhou para suas duas rogues favoritas, dizendo-lhes:

- Minhas meninas, vocês falharam. Deixaram rastros, não foram eficientes. Senão, como saberiam que ele estaria aqui? Pois dou-lhes a chance de consertar suas falhas, trazendo-me o rogue sem as pernas! Vão! Dividam os rogues em dois grupos e separem-se, que cada uma cuide de vasculhar uma região. AGORA!

As duas se entreolharam, retirando-se rapidamente do recinto e reunindo todos rogues. Em pouco mais de uma hora todos partiram. Ficaram na fortaleza somente Fahrad, no saguão, e dois rogues vigias no portão das muralhas.

Alôra estava concentrada na missão, dando ordens aos seus subordinados, porém se perguntava onde teriam deixado vestígios. Neriá, estava satisfeita, pois nenhuma desconfiança caiu sobre seus ombros. Prosseguiu em sua jornada, preferindo ir a terras longínquas, para que suas chances de capturar Nômade novamente fossem mínimas.

Em Arie Peak, após a conversa e o beijo inesquecível em sua amada, Nômade resolveu fazer sua última missão, e rapidamente escreveu uma carta endereçada a Alice.

“Alice,

Linda! A mais belas das mulheres, nada mais desejo em minha vida. Tudo que me poderia acontecer de bom a mim aconteceu: fui agraciado com seu beijo. Você, minha querida, agora é parte de minha alma, é o sangue que corre em minhas veias, é o ar que respiro.

Tanto na vida eu passei, tanto sofri, e se me perguntassem se pudesse voltar no tempo, se eu mudaria as coisas, responderia que não mudaria nada, pois não correria o risco de mudar meu destino, não poderia correr o risco de não ter descoberto o meu amor por você.

Mesmo que você nunca me ame, cada instante de minha vida valeu a pena, principalmente por aqueles preciosos minutos que passamos aqui em Arie Peak esta noite.

Devo-lhe minha vida e gratidão, e mais que qualquer coisa neste mundo devo cuidar de sua segurança.

A esta altura, os membros de Ravenholdt já devem desconfiar que minha fuga foi obra de magia, que foi obra de warlock, e temo chegarem até você.

Meu amor por você está a frente de minha vida, então cuidarei de sua segurança. Por favor, agradeça aos outros por mim, mas não me siga, e não diga a eles onde fui.

Talvez nunca mais nos vejamos, talvez… Se eu não voltar, não procure por mim, será minha última missão. Se preciso for, morrerei para cumprí-la. Se eu morrer, terei êxito em minha missão, que é garantir sua segurança.

E não se esqueça, se você acha que nunca fez algo grande na vida, está enganada. Você fez algo que poucos podem fazer, fez um homem descobrir o sentido do que realmente é viver. Se eu fosse imortal, trocaria a eternidade para beijá-la mais uma vez, para poder estar ao seu lado.

Bem, chegou a hora. Vou ao encontro de Fahrad. Vou por um fim a isto tudo de uma vez por todas, por você, meu amor, para seu bem.

Com amor,

Nômade,

ou melhor, para você minha amada,

Com amor,

Calber”

Mesmo sendo madrugada, deixou a carta aos cuidados da camareira, para que ela a entregasse para Alice assim que o sol nascesse. Em pouco tempo, juntou suas coisas, e partiu escondido, sem que ninguém percebesse. Mas saiu desarmado.

Ainda na mesma madrugada, Nômade chegou a Ravenholdt. A situação não estava a seu favor, pois estava debilitado, sua ferida lhe tirara a agilidade, mas não desistiria de sua última empreitada, a segurança de sua amada dependia disto.

Silenciosamente se aproximou da caverna que ligava a montanha à fortaleza. Algo lhe surpreendeu: via à distância que somente dois rogues guardavam a entrada da fortaleza. Olhou bem aos arredores, mas não notou nem uma presença, nem mesmo camuflada. Se houvesse, perceberia.

“Ora, ora, velho Fahrad, você é previsível. Será que sua cólera está ao meu favor? Se o conheço bem, deve ter mandado todos atrás de mim, he, he, he” – Pensou Nômade com entusiasmo.

Deu a volta pelas muralhas mais baixas e, na parte de trás da fortaleza, aproveitou a proximidade das pedras da montanha para pular a barreira e subir no muro principal. Conseguiu seu intento, com dificuldade, mas sem barulho. Cautelosamente entrou por uma das janelas dos corredores do piso superior.

Todo cuidado era pouco, já que não tinha mais tanta agilidade nas pernas. Lhe restara apenas pouco mais que movimentos lentos para se locomover por conta de seus calcanhares machucados, herança de quando fora capturado. Teria que agir meticulosamente; qualquer desleixo seria seu fim, apenas a agilidade dos braços não seria o suficiente para salvá-lo de ataques multiplos. Vasculhou várias partes da fortaleza cuidadosamente, certificando-se do que já havia previsto quando chegara: realmente Fahrad dispusera de todos. A situação não poderia ser melhor. Sentiu-se mais confiante, pensava única e exclusivamente em Alice, então teria que concluir sua missão a qualquer custo para ocultá-la dos Ravenroldts.

Até aquele momento, nenhum sinal de Fahrad, restava somente averiguar seus aposentos.

“Ele tem que estar lá!” – Pensou, caminhando na ponta dos pés pelo último corredor que terminava no quarto do mestre dos rogues de Ravenholdt. Abriu a porta cirurgicamente, o silêncio era quase que absoluto, ouvia-se somente a respiração pesada do lider dos rogues no recinto. E lá estava Fahrad deitado em seu leito, dormindo com os olhos entreabertos, como se estivesse vendo tudo ao seu redor.

Nômade retirou seus calçados, para não fazer nem um barulho, pois qualquer ruído despertaria Fahrad. Inflou os pulmões, prendendo a respiração, era chegada a hora. Pela lateral direita da cama se aproximou. Fahrad dormia sem cobertas, com suas adagas na cintura e com as mãos cruzadas sobre a barriga, parecendo um defunto pronto para ser velado. Nômade estava bem próximo, a alguns centímetros de seu objetivo, quando de repente:

- Cof…. cofff! – Fahad deu duas tossidas, mas por sorte não acordou, continuou mergulhado em seu sono.

A espinha de Nômade gelou, pensou ser seu fim, mas em frações de segundos recobrou seu foco. A cabeceira da cama era baixa, o rogue deu a volta, posicionando-se atrás da cabeça de Fahrad, apoiou os joelhos na tábua da cabeceira e, em gestos rápidos e simultâneos, pegou as duas adagas da cintura do mestre dos rogues, cruzando-as em seu pescoço na altura do queixo, evidenciando uma leve pressão nas grandes veias que passam pelo pescoço.

Fahrad abriu os olhos espantado, o susto fora enorme, instantaneamente percebeu a situação ficando imóvel, sabia que qualquer gesto seria seu fim, dizendo com dificuldade:

- V…ocê?

-  Fahrad, Fahrad… Eu poderia aleijá-lo, ou até mesmo matá-lo, vê-lo sangrar até a última gota, mas não sou aquilo que você pensa… – Nômade fez uma pausa olhando severamente para seu alvo. – Você me conhece bem Fahrad! Como pôde?

Fahrad olhava intimidado para o rogue agressor. Mas algo inesperado o surpreendeu: Nômade retirou as adagas do pescoço de Fahrad, segurando-nas pelas suas lâminas, oferecendo os cabos para que seu verdadeiro dono as readquirisse. Em seguida ajoelhou-se, com dificuldade, apoiando o joelho direito ao chão e dobrando o esquerdo, estendendo os braços em forma de reverência de um aprendiz ao seu mestre.

Fahrad levantou-se rapidamente. Estava surpreso, e por um instante apontou as adagas para Nômade, mas pouco depois guardou-as na cintura novamente dizendo.

- Você só pode estar louco!… levando uma das mãos ao pescoço, pensou um pouco, depois continuou. – Realmente bem o conheço, suas atitudes me surpreendem, comece a falar, imagino que veio para isso…

Ali ficaram conversando por um bom tempo, Nômade explicou tudo sobre seu ataque aos outros rogues, explicou que os mesmos estavam molestando crianças e jovens indefesas, que estavam quebrando o código, estavam agindo junto com membros do Sindicato.

Conforme a conversa prosseguia o clima entre os dois foi melhorando. Até que Fahrad falou altivamente:

- Eu acredito em você Nômade… – Respirou fundo. – Foi inteligente em mostrar que, se quisesse, me abateria. E deveria tê-lo feito, depois de tudo que passou aqui! Só assim para eu ter te ouvido. És nobre, caro Nômade, realmente falhei em não ouví-lo antes. Seus gestos falam por você, ainda mais depois de me poupar, como posso deixar de crer em suas palavras, homem? Depois de tudo, ainda se ajoelha para MIM! Ora, levante-se, meu caro!

- Você bem sabe que não sou de rodeios e muito menos ficar implorando perdão. A única coisa que posso lhe garantir é que todos aqui o respeitarão. Você conseguiu, meu amigo, você conseguiu provar sua inocência. – Terminou Fahrad.

Nômade não mostrou nem um tipo de expressão, nem de alívio, nem de alegria, apenas em seus pensamentos desfrutava de tamanha satisfação, sabia que agora sua amada estaria longe de quaisquer riscos com os Ravenholdts e, como um prêmio extra, ele estava vivo e livre, finalmente não teria os rogues dali seguindo seus rastros.

Fahrad, sentou-se à pequena mesa ao lado de sua cama e redigiu duas cartas endereçadas às suas pupilas, enrolou-as e selando-as com sua marca, em seguida chamou pelos vigias aos berros, os quais rapidamente apareceram. Quando ali chegaram, empunharam as adagas, assustados ao verem Nômade ao lado de seu mestre.

- BAIXEM AS ADAGAS! Partam agora em busca de Alôra e Neriá. E levem minhas ordens o mais rápido possível. Nômade provou sua inocência e é bem vindo aqui, qualquer um que mover uma fagulha contra ele será punido. – Ordenou Fahrad.

Os dois bateram continência pegaram as cartas e partiram imediatamente.

- Muito bem Nômade, está livre, não terá mais problemas, vá meu amigo.

Nômade continuou astuto, sem demonstrar emoções. Fez reverência a Fahrad, despedindo-se.

- Obrigado “mestre”, adeus!

Já havia amanhecido, Nômade avistava Aerie Peak a alguns quilômetros de distância. O orvalho que banhava as pedras da estrada principal reluziam como ouro, refletindo a luz do sol. Pela distância ainda a ser percorrida, chegaria em Aerie Peak próximo ao meio dia.

O Rogue caminhava tranquilo, pensando na longa conversa que tivera com Fahrad, a tensão diminuiu conforme Nômade esclareceu minunciosamente todos detalhes ocorridos em seu confronto com os dois rogues de Ravenholdt. Porém na noite que acabara, e a sorte esteve ao seu lado, contribuindo para que a situação fosse resolvida de forma mais simples do que poderia ter imaginado, pois desta vez o líder dos rogues o ouvira.

Por Lobo e  Carlos A.

Um Comentário

  1. Lobo disse:

    Dá até gosto e saudades reler isso…

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