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Warcraft: O Dever das Revoadas – Cap. 4
Texto escrito por Matt Burns, fala mais detalhes sobre a jornada de Thrall e os Aspectos Dragônicos na busca pela Alma Dragônica, a única arma capaz de derrotar o Destruidor.
Se você acompanha a história do Universo Expandido de Warcraft, não deixe de conferir.
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O Dever das Revoadas
Por Matt Burns
Tudo dependia do Atemporal. Mesmo que Kalec descobrisse uma forma de alterar a Alma Dragônica, os aspectos teriam que contar com Nozdormu para recuperá-la por entre as linhas do tempo. O artefato não mais existia no presente. Boa parte dele fora destruída há uma década por Rhonin. Posteriormente, a dragonesa negra Sinestra recolheu os restos da arma, já desprovidos de quase todo o poder, e os usou em benefício próprio. Por fim, esses fragmentos da Alma Dragônica foram destruídos também. Pedir do Atemporal que trouxesse o artefato de volta era tarefa quase impossível, mas Kalec, Ysera e Alexstrasza sabiam que isso precisava ser feito.
Após a saída da Mãe da Vida, Kalec foi até uma pequena mesa no Refúgio Cenariano. Sobre ela espalhavam-se orbes de vidência, com os quais se comunicava com seus agentes no Nexus. O aspecto azul pegou um dos orbes e o rodou nas mãos, meditando sobre os empecilhos que envolviam o uso da Alma Dragônica.
Ysera procurou Kalec e, logo antes de começar a lhe falar, a terra tremeu violentamente, jogando-os ao chão. Gritos começaram a ecoar da base de Nordrassil, onde a Harmonia Telúrica e o Círculo Cenariano estavam abrigados. Os aspectos verde e azul entreolharam-se, apreensivos. Terremotos eram comuns desde o Cataclismo, mas este parecia ter-se originado exatamente sob os pés deles.
A terra agitou-se outra vez, mais violentamente do que antes.
– Não pode ser… – Ysera apoiou-se nas paredes de madeira do prédio druídico com os olhos arregalados. A mistura de medo e compreensão na voz da dragonesa deixou Kalec preocupado:
– Foi Asa da Morte? – Um arrepio percorreu as costas de Kalec. – Ele está aqui?
Ysera saiu desabalada do prédio sem responder, e Kalec seguiu-a em direção à base de Nordrassil.
Inúmeras fissuras abriram-se em torno da Árvore do Mundo. Xamãs e druidas resgatavam os companheiros do fundo das fendas. Ysera, no entanto, não se deteve ali. Para espanto de Kalec, ela não parou Nordrassil e continuou até uma fileira de árvores que bordeava uma pacífica clareira. Thrall estava sentado no meio do círculo verde, aparentemente em estado de profunda meditação. Aggra, a companheira do orc, o sacudia pelos ombros.
A orquisa virou-se para Kalec e Ysera, que se aproximaram.
– Tem algo errado com Go’el – falou Aggra aos dois aspectos, referindo-se a Thrall pelo nome de batismo. – Procurei-o após os terremotos e encontrei-o assim. Ele não está saindo do transe. O que aconteceu?
Ysera ajoelhou ao lado de Thrall, cuja expressão denotava grande agonia. A face do orc estava crispada de dor, mas não havia ferimentos visíveis no corpo dele. O aspecto verde constatou: – Então é ele…
A Desperta olhou para a mão esquerda de Thrall, que estava vazia. Rapidamente, recolheu um punhado de terra e botou-o sobre a palma do orc.
– Há alguma ligação entre os terremotos e Thrall? – perguntou Kalec.
– Ele entrou em comunhão com a terra como nenhum xamã antes. A terra se tornou parte dele, e ele, parte da terra. Algo capturou o espírito de Thrall. Essas fendas… são as feridas dele.
– Deve haver algum jeito de libertá-lo – implorou Aggra.
– Se o espírito dele não tiver se afastado muito de Hyjal, talvez seja possível – respondeu Ysera, levantando-se. – Vamos reunir os xamãs e os druidas. Temos muito trabalho à frente.
A companheira de Thrall hesitou: – Não posso deixá-lo aqui, desse jeito…
– Confie em mim, se quiser salvá-lo. – A voz de Ysera soou quase inaudível, mas deixou Kalec alarmado.
Aggra provavelmente partilhou da sensação e juntou-se ao aspecto verde.
– Lady Ysera, há algo que eu possa fazer? – perguntou Kalec, sentindo-se pouco à vontade. O infortúnio de Thrall desenrolava-se no reino dos elementos, sob o qual o aspecto azul não detinha qualquer poder.
– Fique aqui e, aconteça o que acontecer, não deixe que a mão dele fique sem terra de forma alguma.
Com essas palavras, Ysera deixou a clareira junto a Aggra, que olhava para trás, preocupada.
Kalec não esperava aquela resposta, mas concordou. Por alguns instantes, o aspecto azul se perguntou se Ysera havia lhe designado uma tarefa menor por não o considerar à altura de algo mais importante. Ele sabia, no entanto, que a Desperta não costumava julgar os demais. Não havia quaisquer entrelinhas na ordem dela. Ele era necessário ali. E só.
Ao sentar-se ao lado de Thrall, Kalec percebeu que tentara encontrar uma forma de ele próprio derrotar o Asa da Morte, e assim negligenciou outras soluções, mais viáveis. Se Thrall realmente conseguira combinar a própria essência à terra, e vice-versa, isso significaria que o espírito de um mortal continha uma parte de Azeroth, assim como tinha acontecido a Asa da Morte?
Kalec tirou um orbe de vidência da bolsa. Após alguns instantes, a névoa no interior do orbe dissipou-se, dando lugar ao rosto de Narygos, membro da Revoada Azul.
– Kalecgos – disse Narygos, baixando a cabeça em sinal de respeito.
O aspecto azul devolveu o cumprimento e indagou: – Certa vez, um ser efêmero empunhou a Alma Dragônica contra a Revoada Vermelha, correto?
– Um orc de nome Nekros Esmagacrânios. Um ser desprezível.
– Sim, isso mesmo. Ele foi muito afetado pelo artefato?
– Segundo os relatos de Rhonin, nem um pouco – afirmou Narygos. – A Alma Dragônica não afeta negativamente as raças efêmeras como a nossa. Uma característica deveras peculiar, na verdade.
“– Obrigado, meu caro. Isso é tudo, por enquanto. – Kalec guardou o orbe novamente.
“Thrall, um mortal que se conectou à essência da terra”, ponderou o aspecto azul. Há pouco tempo, o orc ajudara a vincular Kalec, Ysera, Nozdormu e Alexstrasza à terra, permitindo que os aspectos combinassem poderes para deter um ataque dos lacaios do Asa da Morte. Naquela ocasião, o orc agira como mero fio condutor de Azeroth. Agora, no entanto, Thrall avançara para muito além disso. Ele era a resposta… o eixo que faria a Alma Dragônica virar contra o criador.
Kalecgos deitou mais terra sobre a mão de Thrall, cuja face se contorceu de dor. O dragão azul receava que a única esperança dos aspectos estivesse à beira de se perder para sempre.
Asa da Morte rasgou o peito de Thrall com as garras, abrindo mais feridas na pele terrosa do orc. O corpo do xamã estava tomado de chagas que vertiam lava, mas nenhum golpe do Destruidor havia sido fatal.
O Aspecto Negro ansiava em dobrar a vontade de Thrall, em moldá-lo conforme quisesse. Esta era a única explicação encontrada pelo orc para o fato de o rival não tê-lo destruído ainda.
Asa da Morte estava quase alcançando o objetivo. Preso naquela caverna, o espírito de Thrall quase não sentia mais Azeroth, exceto pela dor excruciante. Se passasse por tal situação há poucas semanas, quando as dúvidas, os medos e a raiva ainda lhe governavam o coração, o xamã teria desistido. Teria se perdido naquele isolamento aprisionante. Entretanto, Thrall estava certo do seu propósito como xamã como nunca antes.
– Os titãs acharam que você teria forças para persistir – afirmou Thrall, cujo poder era ínfimo comparado ao do aspecto, e portanto usava a arma que lhe restava: a palavra. – Eles confiaram em você. Foram o medo e a dúvida que o fizeram fracassar e se aliar aos seres que desejam aniquilar a vida em Azeroth?
– Sua lealdade é um despropósito, xamã. Se assim o desejassem, os titãs poderiam exterminar a sua e as outras raças inferiores sem hesitação. Os Deuses Antigos sabem da inutilidade do trabalho dos titãs e prometeram-me libertar do meu fardo. Quando chegar a hora, purgarei todos os vestígios dos titãs e governarei, triunfante, este mundo. Azeroth ressurgirá sob novas leis.
Asa da Morte deu uma joelhada no peito de Thrall, lançando-o contra a parede da caverna. O xamã lutava para se levantar quando ouviu o reverberar de várias vozes vindas de fora da câmara. Era a Harmonia Telúrica: Muln Terrafúria, Nobambo e… Aggra.
Por meio dos espíritos elementais, os xamãs estavam procurando o companheiro. Thrall tentou se ligar ao corpo físico, e, para grande surpresa, sentiu a terra úmida na mão. A conexão entre as léguas de solo entre Hyjal e a caverna se havia reavivado. O orc concentrou toda a energia para comunicar-se mentalmente com os elementais, que estavam fora da câmara.
Ouviu apenas silêncio.
Thrall preparou-se para tentar chamar os elementais novamente, mas foi interrompido por uma onda de energia que começou a curar seu corpo de terra. “Os xamãs também estão selando as fendas em Hyjal”, deu-se conta. E, conforme isso era feito, também eram curadas as feridas do orc, que pôs-se de pé, revigorado.
– Você não respondeu a minha pergunta – provocou Thrall. – Foram o medo e a dúvida que o fizeram fracassar?
Os olhos do Asa da Morte incendiaram-se. O aspecto negro avançou sobre Thrall, agarrou-o pela garganta e lançou-o para cima. Em seguida, passou uma das garras brutais pelo abdômen do orc.
– Em um sistema imperfeito desde a origem, o único fracasso é negar a verdade. No entanto, não me importa quantos seres miseráveis você e os aspectos enganarão com essa causa equivocada. A vitória sempre será fugaz enquanto vocês sacrificarem as próprias vidas em nome de um futuro sem esperanças.
A pele rochosa de Thrall estava se desfazendo sob as garras do Asa da Morte, que apertava cada vez mais o pescoço do inimigo, e a conexão do orc com Hyjal enfraqueceu-se mais uma vez.
–Não… – Thrall rosnava enquanto lutava para se livrar das garras do Asa da Morte. – Nós… triunfaremos… porque enfrentamos nossos desafios… juntos. Você fracassou… porque escolheu… carregar seu fardo… sozinho!
A terra ao redor da caverna começou a tremer, no que Thrall julgou ser uma manifestação do ódio do Asa da Morte. No entanto, em vez de intensificar o ataque, o aspecto negro subitamente largou o orc.
Asa da Morte estendeu as mãos, rugindo de fúria. Enormes penedos de sangue dos Deuses Antigos levantaram-se do chão da caverna e se aglomeraram num canto no alto das paredes, formando uma grossa barreira de cristais. Thrall levou alguns instantes para entender a origem dos tremores. As raízes de Nordrassil estavam mergulhando em direção à câmara, atravessando terra e rochas em velocidade espantosa.
A Harmonia Telúrica – e, aparentemente, o Círculo Cenariano – o haviam encontrado.
Thrall abriu caminho até Asa da Morte e se jogou contra o Aspecto, interrompendo o feitiço que o rival proferia. Asa da Morte se levantou apressado, fervendo de ódio. O corpo do dragão pulsava, e rios de lava vazavam das rachaduras na armadura. Asa da Morte se preparou para atacar, mas uma das raízes de Nordrassil irrompeu na caverna, explodindo a parede em uma chuva de cristais.
A raiz avançou em direção ao Asa da Morte, que fincou os pés no chão. Por alguns instantes, ele conseguiu resistir àquele aríete vivo, cujo diâmetro era maior do que um kodo. Entretanto, três outras raízes seguiram-se à primeira, invadindo a caverna e forçando o aspecto negro a recuar.
Uma outra raiz entrou lentamente e enrolou-se na cintura de Thrall, puxando-o para fora do vazio. Ao sair da caverna, a ligação de Thrall com o corpo físico fortaleceu-se. O orc sentiu novamente a terra como ela deveria ser, sem a influência dos Deuses Antigos. Toda a dor e todo o sofrimento por que ele havia passado, os sentimentos dilacerados que permearam toda a existência do Asa da Morte, tudo isso havia se dissipado.
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